
Refreia-me o tom com que vais dizer
que é tão vulgar este meu vício
que é só gastar, que é desperdício
que há coisas melhores para fazer
já sei que pensas que é só estupidez
mas há maneiras e maneiras
porque a linguagem tem fronteiras
limites que às vezes não vês
diz-me só se te faz feliz
dizer-me as coisas como mais ninguém diz
um dia eu vou deixar de te ouvir
repito, um dia eu vou deixar de te ouvir
modera a tensão que te vem na voz
dessa maneira ficas feia
e se ele há coisa que eu não queira
é que amanhã acordemos sós
fala-me ao ouvido e sem malvadez
tira o sarcasmo da expressão
falemos juntos, no colchão
depois fazemos tudo outra vez
Mascou limão disse "deixa, deixa-me"
meteu tequilla no corpo e andou
com rija pose insubmissa, beijou-me,
molhou o rosto e dançou
"não temos nada a perder", disse,
pediu-me lume e fumou
seu jovem corpo indecente sentou-se
lembrou os corpos que amou
fez pausa curta, inventou um nome
"Natália, muito prazer"
com uma vontade maior que fome
beijei sem nada dizer
à noite é sempre a fingir
bebendo quente o calor
e tudo o resto era sexo e tédio
como nas histórias de amor
a vodka pura
é uma bebida incolor
faz-me brilhar no escuro
aquece e apaga a dor
com outra qualquer mistura
aniquila-me o pudor
Só viver em paz
e nunca sequer compreender
do que se é capaz
p'ra nunca ter nada a perder
dispensar noções
das coisas que importa varrer
das recordações
ser feliz num dia qualquer
limpar todo o excesso e sentir
deixar de desejar ou crer
num ser maior do que eu
viver num mundo só meu
sem regras nem metas nem portas por abrir
destruir o amor
e tudo o que em volta prender
preferir a dor
a deixar coisas por fazer
só por experimentar
viver em função do prazer
e nunca parar p'ra pensar
ser feliz num dia qualquer
limpar todo o excesso e sentir
deixar de desejar ou crer
num ser maior do que eu
viver num mundo só meu
sem regras nem metas nem portas por abrir
Sai pró trabalho e acredita que tem que ser assim
tira a ramela do olho, põe o carro a vibrar
sonha que tem um Mustang e hoje é o Steve McQueen
como um rebelde nervoso, faz as rodas chiar
só precisa de uma história que justifique o fim
qualquer coisa muito heróica pra ninguém duvidar
que ele é capaz!
que ele é diferente!
corre veloz e contente, a vida vai mudar
coisas que viu no cinema
e que inspiraram milhões, ele não é excepção...
imagina cada cena, estremece
está a gostar do guião
roda o volante e transpira, será herói ou vilão?
o bom da fita nem sempre tem um final feliz
mas quem é protagonista deve ter sua canção
com melodia vincada e uma letra que diz:
que ele é capaz!
que ele é diferente!
corre veloz e contente e a vida vai mudar
mas tem azar!
choca de frente
com um camionista imprudente, nem conseguiu travar
e nada disto é cinema
já não existem heróis, ele não é excepção...
pelo desfecho da cena, parece
morreu sem consagração
Um bisturi
pedaço
de algodão doce
um bisturi
que eu seguro como se ele fosse
só p'ra ti
p'ra que mordas sem que eu sinta remorsos
desse sangue que essa boca espalha
pelo chão da sala
em teu redor
esse sangue que essa boca espalha
ver-te sangrar
coquete sem entendimento
ver-te sangrar
sem sentir o arrependimento
e descobrir
tanta alegria numa poça encarnada
por que é que agora já não dizes nada?
e descobrir
tanta alegria numa poça encarnada
por que é que agora já não dizes nada?
é consequência do teu mau comportamento
é consequência do teu mau comportamento
é consequência do teu mau comportamento
Crava bem fundo as unhas
concentra-te e faz explodir
tudo o que o dia deu se amontoa
nesta hora de dormir
vai debaixo do tapete a ver se eu chego
vai à janela espreitar se o mundo está
verás sangue e verás medo e é aí que eu estou
o teu príncipe imperfeito a destruir tudo o que é dor
e se isto tudo te faz tanto sentido
e se eu definhar no quarto sem amor
vai à janela gritar que o mundo acabou
o teu príncipe imperfeito aniquilou todo o esplendor
Crava bem fundo as unhas
concentra-te e faz explodir
tudo o que o dia deu se amontoa
nesta hora de dormir
a faca na mão
materna tua mão
o sangue nas mãos e a
faca no chão
se os teus olhos dizem que eu estou vivo ainda
dentro em breve serei só recordação
vai p'rá cama, deixa que os sonhos façam de mim
o teu príncipe encantado em vez de um fraco chegado ao fim
Tens uma vida normal
mas pressentes que afinal
as coisas todas são esquisitas
este mundo é um buraco de animal
sentes-te mal e hesitas
pedes ajuda a alguém
se houver remédios também
não dizes não
já viste o procedimento todo na televisão
Diz Freud "a culpa é da mãe"
Pagas para desabafar
coisas que andas a pensar
sobre o futuro e o passado mal passado
que te está a atormentar
Man, andas a descompensar
Psicologia,
factor de stress.
Esquizofrenia é uma mania,
dá em gente com um ego que aborrece.
E há tanta coisa que enlouquece.
vais de consulta em consulta
mas nada disto resulta
e então aderes a outras modas mais em voga
que convertem gente culta
juntas-te ao culto do yoga
destróis teu ego fatal
depois constróis em espiral
uma descida sem retorno e destemida
com um desfecho banal
és só mais um suicida
isto são coisas tão fáceis
são só doenças portáteis
que se apoderam das cabeças mais modernas
em alturas mais voláteis
sentes-te só e hibernas
Olhas p'ra mim e então perguntas por que o faço
se eu te respondo que sou rijo como aço
levas a mal
ficas diferente
bates com a porta e vais contar a toda a gente
és tão mimada e tão difícil de aturar
mesmo em silêncio tens o dom de arreliar
mas como sempre as culpas sobram p'ra mim
só tenho a culpa de ainda não ter dito "FIM"
Aaaai!
se não fosse esse ar fatal
que faz de mim um animal
isto acabava mesmo aqui
diz que sou rude
mal-educado
chama-me bruto e faz um ar apaixonado
diz que a maltrato e não mereço o que ela sente
mas acrescenta com expressão adolescente
que gosta tanto mas um tanto tão gigante
franze-me os olhos com um ar angustiante
fico confuso e dá-me ganas de agarrar
faz-se difícil mas acaba por gostar
Acabou-se o tempo
lágrima alimento
extingo o som de ensurdecer
só mais um momento
e mastigo veneno
destino em pó de adormecer
perdem-se as veias que aperto
cala-se o corpo e o resto
a dor é glória, faz-me sentir prazer
a dor é glória, faz-me sentir prazer
magia e talento
êxtase e tormento
nasci com o dom de enlouquecer
meu sono doente
maldade em semente
regar com álcool, ver crescer
fechas os olhos e eu dou-te a mão
caímos só, sem sentido
metamorfose final em vão
desfecho indefinido
tens que deixar correr
chegar ao fim bem vivido
sou tão carnal e imperfeito
amo e cultivo o defeito
há sempre um vício por explorar
mexo-me mal e sem jeito
levo uma vida direito
aos sítios certos do azar
Numa manifestação
contra o poder global
vi uma miúda baril
de rastas e bornal
sorriu p'ra mim divertida
efeito do xámon
que fumava distraída
enquanto ouvia um som
A malta gritava em coro
que queria mudar
o dia de hoje, o futuro
e a história, se calhar
como nas rebeliões
dos tempos dos heróis
cantavam hinos repletos
de revoluções
A tarde caía a pique
no escuro total
quando a polícia mandou
parar o maralhal
porém as reclamações
que havia por fazer
ainda abundavam na lista
de um gajo qualquer
que incitava toda a gente
p'ra continuar
com a gritaria anarquista
mas rudimentar
a polícia não gostou
e decidiu também
reclamar à bastonada
p'ra manter a lei
um djambé tré cool
fazia dançar
a malta que ali
estava p'ra reclamar
fiz que era mais um
do contra também
mas a pose, enfim,
não enganou ninguém
Entra sem tempo, em contra-ritmo, uma guitarra
falta o talento e o sentimento ao guitarrista
salta pró palco, enfrenta o povo e mostra garra
marca o compasso mas confunde o seu baixista
e o baterista que era amargo e deprimido
não descobria o amor na multidão
desprezava a melodia sem sentido, que era menor
e sem motivo
batia nos tambores
numa batida sem dó
o povo aclama e nem repara no momento
em que o baixista se distrai e falha a nota
a multidão agita a sala e o movimento
distorce o som e abafa o canto de derrota
em que o cantor fala da tragédia, do sonho e do prazer
mas sem dizer
que a história é toda verdadeira e voltará
a acontecer - se ela quiser
viver recordações
com a voz tremida gritou
entra na sala a rival-mor da bateria
eis que a batida abranda morna e dá balada
o baterista vê a imagem que não queria
um fã eufórico a beijar-lhe a namorada
e o vocalista que era sensível à dor
ao ver o amor a definhar
forçou a voz e um sentimento com valor
soou maior
e o coliseu... gelou sem respirar
ninguém pedia o encore
Ele lutava contra o peso em excesso
pois desejava alcançar o sucesso
na passerelle ou em anúncios na TV
mesmo em revistas de moda que ninguém lê
fazia pose com seu ar de modelo
esticava rugas, arranjava o cabelo
usava produtos pra poupar a epiderme
fazia dieta, era magrinho o paquiderme
pra manter a linha e conservar o semblante
bebia sumos light e só usava adoçante
saía pró ginásio ou pra correr ao fim do dia
quando se via ao espelho ele achava que emagrecia
mas o paquiderme não sabia que afinal
o mundo vip está vedado ao mundo animal
revistas cor-de-rosa, desfiles de manequins
estão reservados só pra mulheres, homens e afins
sentiu-se excluído e apanhou uma depressão
pensou em várias formas de dar a volta à questão
mas enquanto pensava o paquiderme ia comendo
o seu peso aumentava e o seu corpo ia crescendo
com o passar dos tempos foi perdendo a silhueta
difícil moderar aquela figura indiscreta
encontrou outros sonhos, aceitou a situação
ser obeso e famoso eis a sua nova ambição